O cachorro e as suas primeiras etapas na vida:
-Os primeiros contactos, mãe, irmãos, criadores e tutores.
-A importância de esses primeiros passos e a influência que isso terá no seu futuro.
Quando um cachorro nasce começa a dar os seus primeiros incertos passos no mundo, não podemos saber como será o seu desenvolvimento e em que cão se converterá em adulto. Sem dúvida a genética terá um papel importante, mas as experiências e as vivências serão factores realmente determinantes no seu desenvolvimento. É aqui que podemos decidir o seu destino.
As primeiras experiências do cachorro podem influenciar toda a sua vida futura. No período de desenvolvimento fetal, factores externos, principalmente alimentares e sanitários da mãe, podem afectar a correcta evolução do sistema nervoso, e em última instância o carácter e a forma de reacção do cachorro em adulto. Proporcionar à mãe um ambiente tranquilo pode ajudar a que o processo de crescimento do feto seja mais harmonioso e equilibrado. Muitos estudos e muitos trabalhos já o demonstraram para que possamos descobrir esses delicados equilíbrios nesta fase, a fase fetal, que ainda esconde fascinantes mistérios.
Depois do nascimento devemos considerar que o cachorro já possuí capacidades de aprendizagem, em proporção ao desenvolvimento do seu cérebro e dos seus sentidos que se vão aperfeiçoando em períodos sucessivos. Por exemplo o encéfalo cresce durante as primeiras 4 semanas de vida e continua fazendo-o quando o cachorro têm vários meses. Dito isto, até as 4 semanas de vida, o cachorro pode aprender associações simples e bastante lentamente, nada em comparação com o desenvolvimento depois das 4 semanas.
Ao desenvolvimento do cérebro ocorre também de forma proporcional um desenvolvimento dos sentidos: No nascimento só funcionam os sentidos do gosto, tacto e olfacto, e é lógico considerando que são os sentidos que o cachorro necessita para relacionar-se de forma básica com a mãe e encontrar o alimento. Os restantes sentidos não começam a ser funcionais antes dos 19-20 dias para o ouvido e 25 dias para a visão e ainda vão evoluir depois.
Conhecer como evoluem os sentidos do cachorro é muito importante se consideramos que é através destes sentidos que o cachorro pode relacionar-se com o mundo e aprender.
A maturação dos sentidos representa um ponto fundamental para que o cachorro possa começar a relacionar-se com o ambiente.
Os períodos de desenvolvimento estão divididos pelas seguintes fases:
-1º Período pré-natal (desde a concepção até ao parto)
-2º Período neonatal (desde o nascimento até aos 12 dias)
-3º Período de transição (desde o 12 até aos 21 dias)
-4º Período de sociabilização (desde os 21 dias até aos 3 meses)
-5º Período juvenil (desde os 3 meses até à puberdade)
-6º Período de maturidade (desde a puberdade até à velhice)
-7º Período de velhice.
Além dos sentidos e das suas fases de desenvolvimento, também devemos ter em conta os períodos de medo no seu desenvolvimento.
São períodos breves que devido a alterações hormonais e cognitivas alteram o seu estado emocional, nestes períodos o cachorro está mais sensível a estímulos (visuais, sonoros, sensoriais, olfactivos,…), devemos por isso ter cuidado e não expor o cachorro a novos estímulos nestas fases ,pois corremos o risco de o cachorro encarar essas novas experiências com medo e generalizar esse medo que pode perdurar durante toda a sua vida.
Assim, nunca devemos retirar o cachorro da sua mãe antes da 9ª semana, e quando estas fases aparecerem ter sensibilidade para dar ao cachorro segurança e confiança para que esses medos passem o mais rápido possível.
Estes são os períodos de medo no desenvolvimento de um cão:
1º Por volta das 8 semanas de vida.
2º Por volta dos 4 meses e meio.
3º Por volta dos 9 e os 10 meses.
4º Por volta dos 13 meses.
5º Por volta dos 17 e os 19 meses.
Podem existir pequenas variações nestes períodos. Cachorros de porte pequeno atingem a maturidade mais cedo e caracteristicas como a raça, a genética, a sociabilzação e a individualidade de cada cachorro pode ter alguma influência quando ocorrem estes períodos de medo.
Os períodos da vida do cachorro e a sua importância no desenvolvimento do carácter.
A partir de quando os cachorros têm a possibilidade de interagir com o ambiente, começa a sua aprendizagem que será fundamental para o desenvolvimento do seu comportamento na sua vida futura. Já durante o período neonatal, alguns estudos demonstram que o cachorro pode ser influenciado positivamente através de umas manipulações neonatais.
Os animais que tenham experimentado manipulação neonatal demonstram uma maturação mais rápida do sistema nervoso central, abrem os olhos mais cedo, crescem mais depressa e demonstram uma melhor coordenação motora, além de serem mais resistentes a algumas doenças. Isto origina em adulto, numa melhor capacidade de aprendizagem, resistência ao stress e à frustração. Estes animais são mais equilibrados desenvolvem-se correctamente, reagindo aos estímulos de forma menos “emocional”. Têm um comportamento exploratório mais desenvolvido, demonstrando menor resposta de medo num ambiente desconhecido. Por essa razão alguns criadores põem em prática planos de manipulações estandardizados.
Durante o período de transição os cachorros começam a ver e a ouvir. Começam a jogar e a interagir com a sua mãe e os irmãos. Mesmo que bebam leite materno, começam a controlar a sua micção e defecção de forma voluntária. Trata-se de uma fase breve que antecede o período de socialização, sem dúvidas o período que mais marcará a vida do animal. É fundamental que este período decorra tranquilamente, que o cachorro continue com a sua mãe e seus irmãos para desenvolver um correcto comportamento nas etapas sucessivas.
Durante o período de sociabilização o cachorro aprende as condutas agnósticas, é dizer as bases da organização social da espécie e as bases de hierarquia. Através do jogo e do contacto com a mãe e os irmãos aprendem as correctas posturas de dominância e submissão, a inibir a mordida e a interagir correctamente. Algumas formas de agressividade ou comportamentos anti-sociais dos cães , o desinteresse manifestado por alguns indivíduos perante os seus semelhantes, poderão derivar de uma vivência demasiado curta com a sua família canina. À parte do jogo agnóstico, aproximadamente às 6 semanas, aparece o jogo sexual que consiste em realizar movimentos pélvicos montando outros cachorros de sexo igual ou diferente. Uma das consequências de não poder desenvolver este tipo de jogo com os irmãos é que em adulto tenha mais problemas em realizar uma monta natural de forma correcta, com erros e movimentos desapropriados.
Outro importante acontecimento que ocorre neste período é o desmame. O cachorro deve começar a provar novos alimentos a partir da 4ª semana e é um fenómeno também progressivo. Nos canídeos selvagens o progenitor regurgita o alimento parcialmente digerido e lambe os cachorros na zona perioral, embora este comportamento seja raro em animais domésticos. O cachorro deixa de mamar às 8-10 semanas, o desmame é favorecido por o progressivo regurgitar da mãe que deixa de assumir a posição de amamentação e se afasta do cachorro que quer mamar. Existem estudos com a hipótese que o desmame precoce possa condicionar o aparecimento de alguns distúrbios de comportamento alimentário, como por exemplo a “pica”, é dizer comer objectos ou substâncias que não são alimentos. Outra importante consequência de um desmame demasiado prematuro, poderá ser a aparição de ansiedade por separação. A progressiva rejeição da mãe funcionaria como uma habituação para o cachorro que aprenderia, assim, a despegar-se da mãe e a ser em definitivo, afectivamente mais autónomo. É nesta fase que o cachorro deve socializar, é dizer deve ser exposto a todas as situações, objectos, pessoas e estímulos que encontrará na sua vida futura.
Um defeito na socialização pode provocar medos e fobias a situações ou coisas que podem inclusive generalizar-se, como no caso dos ruídos. Têm-se demonstrado que nesta fase o sentido da visão ocupa um papel muito importante, assim, por exemplo a visão de uma criança e de um adulto são
muito diferentes aos olhos de um cachorro que se socializa de maneira diferente com adultos e crianças. Em muitas ocasiões chegam às consultas de comportamento animal que já desenvolveram medos generalizados, comportamentos compulsivos, fobias e agressividade devida à sobre protecção por parte dos seus tutores, animais que em idades precoces tenham experimentado a solidão, maus tratos, castigos desnecessários e inconsistentes que marcarão a sua vida para sempre.
O final do período de socialização está marcado pela a aparição do medo. O cachorro não experimenta o medo até aproximadamente à 5ª semana e isto é lógico, considerando que durante a socialização deve explorar e relacionar-se é drasticamente reduzida após a 8ª semana.
Às 10-12 semanas, o cachorro pode sentir medo e isso é muito importante no que diz respeito aos métodos de educação que usamos. Uma punição mal aplicada pode prejudicar o desenvolvimento normal do comportamento. O período sensível da socialização coincide com o período de tempo entre o inicio da maturidade sensorial e a maturidade das estruturas nervosas que controlam a resposta do medo diante de novas situações. Embora a punição seja desencorajada especialmente no caso de cachorros, sempre que decidimos aplicar uma punição, ela deve ser consistente e proporcional. Se decidimos punir para eliminar um comportamento, devemos sempre fazê-lo não para criar insegurança ao animal que não compreende, porque numa situação ele foi punido uma vez e na mesma situação sucessiva não foi. Um comportamento bastante difundido nos tutores de cachorros é puni-los ou repreende-los por terem eliminado fezes ou urina em casa. Neste caso pode-se criar um conflito no cachorro porque ele não sabe que fez algo de “mau”, ele está apenas na situação de querer ir receber o seu “amo” e de ser castigado por isto. A postura de culpabilidade neste caso é uma tentativa de apaziguar o seu “amo” e recuperar a harmonia com ele. Punir um animal na hora errada cria insegurança porque o animal não sabe quando a punição virá porque não se relaciona com nada.